Como o trabalho afeta a saúde mental do trabalhador?

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     Quando Charles Chaplin interpretou um operário no clássico filme “Tempos Modernos”, ficou bastante claro como as condições de trabalho podem gerar consequências adversas para a saúde mental do trabalhador. O personagem interpretado por Carlito era submetido à um aumento contínuo do ritmo de produção, característico da Revolução Industrial, na qual ele era apenas uma pequena engrenagem num esforço mecânico repetitivo culminando numa relação homem-máquina tão conflituosa que o levou à um estado de insanidade. Qualquer semelhança entre a arte e a realidade não era mera coincidência.

      Quase oito décadas depois, mesmo com o avanço tecnológico e dos direitos trabalhistas, a alienação do trabalho proveniente das exigências produtivas da sociedade capitalista ainda resultam em transtornos mentais e comportamentais. De acordo com o Instituto Nacional de Seguro Social (INSS), em 2010 essa era a terceira razão de afastamento dos trabalhadores de suas ocupações. Um estudo da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) nos aponta algumas das razões que levam os trabalhadores a se ausentar das suas atividades temporariamente ou definitivamente.

     A primeira das razões, de acordo com a pesquisa, seria a alta demanda do trabalho. O avanço técnico-científico permitiu um extraordinário aumento na produtividade em todos os setores da economia. As exigências aos trabalhadores aumentaram na mesma proporção, não só conforme a necessidade de se operar as novas tecnologias e se utilizar os novos conhecimentos, natural do desenvolvimento da sociedade, mas principalmente para manter a lógica de acumulação de capital e de consumo. Nesse sistema, supervaloriza-se a maior qualificação, que ocupa a maior parte do tempo dos indivíduos em detrimento de outras atividades importantes para a saúde mental, como o lazer e os relacionamentos interpessoais.

    A segunda razão é o relacionamento hierárquico e a relação entre colegas de trabalho, ambos calcados na competitividade que, dentro da lógica capitalista, resultaria também no aumento da produtividade e, portanto, do lucro. Sendo o ser humano um ser social e sua força de trabalho o meio de sua subsistência, um modelo de relacionamento de trabalho baseado na competição e na hierarquia inflexível gera insegurança, uma postura individualista e pouca participação dos trabalhadores na tomada de decisões do processo produtivo. Além disso, as relações de poder nessa estrutura organizacional permitem abusos, assédio moral e assédio sexual, nos quais as principais vítimas são as mulheres.

      O terceiro motivo é a falta de equilíbrio entre o esforço demandado aos trabalhadores e a recompensa recebida. A acumulação de capital só é possível com o aumento da produtividade e com a redução de custos. Assim, o empregado trabalha muito e recebe pouco, sente-se desvalorizado, mas continua se submetendo às condições de trabalho que lhe são impostas, pois de outro modo não é capaz de garantir o seu sustento. Para além da baixa recompensa financeira, existe também o pouco reconhecimento profissional, devido às relações competitivas e hierárquicas citadas anteriormente.

    É possível observar que todas essas razões estão intimamente relacionadas. A lógica capitalista aumenta a demanda enquanto desvaloriza o profissional, fazendo com que ele busque uma maior qualificação profissional e entre em competição com seus colegas de trabalho, culminando numa dedicação excessiva às suas atividades laborais sacrificando assim sua vida pessoal. O resultado disso é evidente: stress, depressão e diversos outros transtornos psicológicos.

Antonio Bruno R. Vivas

Referências

João Silvestre da Silva Júnior. Afastamento do trabalho por transtornos mentais e fatores associados: um estudo caso-controle entre trabalhadores segurados da Previdência Social. São Paulo, USP, 2012. Disponível em: <  http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/6/6134/tde-26102012-134845/pt-br.php >. Acesso em 10 de dezembro de 2015.

Dário da Silva. OS TEMPOS MODERNOS DE CHAPLIN: TRABALHO E ALIENAÇÃO NA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL. Disponível em: <https://dariodasilva.wordpress.com/2011/03/15/os-tempos-modernos-de-chaplin-trabalho-e-alienacao-na-revolucao-industrial/ >. Acesso em 10 de dezembro de 2015.

José Roberto Heloani; Cláudio Garcia Capitão. Saúde mental e psicologia do trabalho. Disponível em: < http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-88392003000200011 >. Acesso em 10 de dezembro de 2015.

Álvaro Roberto Crespo Merlo; Naira Lima Lapis. A saúde e os processos de trabalho no capitalismo: reflexões na interface da psicodinâmica do trabalho e da sociologia do trabalho. Disponível em: < http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-

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2015.

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