A técnica que convive com a arte

A tradição científica diz que pessoas das áreas técnicas normalmente não são muito criativas. Mas quem por acaso diz isso não deve conhecer as histórias de pessoas como Leonardo da Vinci, que foi, entre outras coisas, anatomista, matemático, engenheiro, pintor, escultor, poeta e músico.

Como estamos no Brasil, mais especificamente na Bahia, por que não falar de profissionais que atuam em duas áreas que parecem diversas e que, no entanto, se aproximam? César Fernando de Oliveira, é um desses profissionais que decidiu abraçar as duas áreas e que faz isso muito bem. Técnico de Operações, ele também trabalha com cinema e inclusive já ganhou alguns prêmios com suas produções. Nessa entrevista ele fala sobre como consegui conciliar as duas coisas.

Innovo – Você fez seu ensino técnico no Cefet-Ba, atualmente IFBA, como foi o percurso?

CésarDesde criança sempre me interessei em saber como as coisas funcionavam. Gostava de desmontar e montar brinquedos ou tentar consertar eletrodomésticos quebrados em casa. Essa curiosidade acabou aguçando o interesse por questões científicas e filosóficas. Após a oitava série, o Cefet-BA foi uma opção para aprimorar os conhecimentos em questões técnicas e, ao mesmo tempo, cursar uma escola federal gratuita e com referência em qualidade de ensino. Fiz o curso de Eletrônica, foi uma ótima introdução ao mundo da Ciência e da vida numa escola técnica.

Innovo -Você chegou a trabalhar na área?

César – Continuo trabalhando na área, como Supervisor Técnico de Operações numa emissora de TV. foi justamente devido a minha formação no Cefet-BA que consegui trabalho após a conclusão do curso. Até hoje os alunos do Cefet-BA, hoje IFBA, são as primeiras escolhas para seleção de estagiários. O trabalho continua interessante e instigante. Tecnologia é uma área de interesse permanente, principalmente devido as mudanças em curto espaço de tempo.

Innovo -Terminado o técnico você começou a cursar Engenharia Elétrica, mas abandonou e decidiu fazer cinema. Qual o motivo da mudança?

César – O curso de Engenharia Elétrica foi um processo natural para quem havia cursado Eletrônica. Era quase uma extensão do curso técnico já que entramos na faculdade com toda a bagagem científica da escola técnica. Cursei até o segundo ano normalmente mas sentia que faltava algo. Foi uma questão existencial mesmo. Logo que abandonei o curso fui parar no Teatro Vila Velha, numa oficina de atores com o Márcio Meirelles e a Chica Carelli.

Innovo -Quando percebeu que deveria trabalhar na área do audiovisual?

César – Ao final da oficina de atores no Vila Velha fui selecionado por Márcio Meirelles para a leitura dramática de uma peça que ele estava trabalhando na época. Era um texto inacabado de Bertolt Brecht, chamado “Material Fatzer” onde, através das leituras, buscava-se uma forma de encenar aquele material denso e difícil. Foi uma das experiências mais marcantes para mim no meio da arte dramatúrgica. Durante o período de ensaio soube da abertura do curso de Cinema e Vídeo na FTC, percebi ali uma oportunidade de atrelar meus conhecimentos técnicos a vontade de fazer algo ligado a arte.

Innovo – De alguma forma o conhecimento adquirido no curso de Engenharia conseguiu lhe ajuda no processo de produção cinematográfica?

César – O cinema se encaixou perfeitamente já que é uma das artes que caminha lado a lado com a tecnologia. Estão unidas simbioticamente. Principalmente em questões de produção os conhecimentos técnicos me ajudaram bastante, principalmente, porque o set de filmagem é muito parecido com a operação em televisão, onde trabalho desde que terminei o curso técnico.

Innovo -Em algum momento achou que deveria ter terminado Engenharia? Você pensa em retornar algum dia?

César – Em alguns momentos devido a carreira técnica em Televisão. Mas não penso em retornar. Tenho em mente um mestrado na área de Cinema. Me interesso também na área de pesquisa e ensino do Cinema.

Innovo -Você dirigiu “10 Centavos”, curta que ganhou alguns prêmios. Como foi o processo de criação?

César – O filme foi realizado a partir do prêmio Braskem Cultura e Arte, categoria Cinema, que acontecia anualmente aqui na Bahia e premiava um projeto de curta metragem em 35mm de até 20 minutos. A produção foi um pouco complexa. Trabalhamos bastante na pré-produção fazendo reuniões com todos os departamentos (produção, fotografia, elenco, arte, som…) na busca da conceituação formal até encontrarmos o “tom” do filme. Depois disso, começamos os ensaios com os atores, fizemos storyboards e criamos o desenho de produção, onde planejamos toda a etapa de filmagem. Foi um trabalho de quase quatro meses para condensarmos tudo em 7 dias de gravações. A parte mais crítica foram as filmagens nas ruas, já que precisamos parar o trânsito, pedir autorização para os moradores, além de lidar com a luz natural em quase todos os momentos. A preparação dos atores também foi uma etapa fundamental, essa preparação começou desde a pré-produção. No início, pensamos em utilizar um garoto que não tivesse nenhuma experiência de ator para o papel principal, uma herança do neo-realismo italiano, e até ensaiamos durante um tempo com um, mas tivemos bastante dificuldade nesse processo, principalmente devido ao comprometimento com o papel. Percebemos que precisaríamos optar por outra estética, daí surgem as referências do cinema iraniano (Kiarostami) com a câmera na altura dos atores e russo (Tarkovski), onde exploramos os momentos de devaneio do personagem. Estávamos tratando de um tema difícil, que é o trabalho infantil, e ao mesmo tempo entrando numa questão dos meninos de rua e sua invisibilidade social. O maior desafio foi não ser didático e manter a sutileza nos elementos que compõe o filme como um todo. Dessa forma, o protagonista do filme, Jorge Junior, acabou surgindo uma semana antes das filmagens. Ele ainda não era ator, mas tinha acabado de fazer um teste para uma companhia de teatro e se encaixava no perfil, já que também trabalhava nas ruas ajudando sua avó que vendia doces na porta do teatro Vila velha.

Innovo – Quais prêmios o curta ganhou e qual a importância deles para você?

César – Mais importante que os prêmios são as participações em festivais de cinema. Os festivais são superimportantes. Eles funcionam como vitrines para os curtas-metragens, principalmente aqui no Brasil, onde não temos muitas TV´s que compram e exibem curtas. Enviei 10 Centavos para muitos festivais mundo afora, ele foi selecionado em mais de 30. Em todos que participou o filme foi bem recebido. Conquistou 12 prêmios (incluindo melhor filme, ator e direção) sendo um deles internacional (Prêmio UNICEF – Festival Internacional de Cine Documental y Cortometraje de Bilbao – ZINEBI 49, Espanha) e o Prêmio Dom Quixote pela Federação Internacional de Cineclubes – FICC, além da participação no Short Film Corner do Festival de Cannes – 2008.

Innovo – Quantos outros filmes você já fez?

César – Ano passado conclui um documentário chamado “Em busca de Pilão Arcado”, de 52 minutos, em parceria com Héwelin Fernandes. O filme faz o percurso para chegar em Pilão Arcado, uma das cidades alagadas devido a construção da Barragem de Sobradinho. Pode ser assistido na internet, no link http://vimeo.com/79865950.

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Posted by Joseane Rosa

This article has 1 Comment

  1. “10 CENTAVOS” É UM CURTA METRAGEM QUE HONRA A CINEMATOGRAFIA BAIANA. PERFEITO!!!

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