Buscam-se engenheirxs contemporânexs

Colunista: Tiago Matos


É certo que viver na atualidade demanda um esforço contínuo por manter-se a par das mudanças que ela traz consigo. Os elementos da globalização financeira e produtiva, além dos dispositivos tecnológicos, corroboram para fazer com que a renovação, ou, para usar um termo bastante em voga, a “atualização”, se tornasse um pressuposto essencial para lidar com um enfrentamento cotidiano da vida na era da informação.


As engenharias certamente tem um importante papel nessa dinâmica. Responsável pelo desenvolvimento de ferramentas que incrementam e tornam possível a emergência desse mundo, que se transforma em velocidade inapreensível, as funções e atividades as quais ela está vinculada tornam-se alvos de algumas críticas, que buscam atestar, sobretudo na realidade brasileira, a necessidade de que estudantes, universidade e políticas públicas estejam em comum acordo com os critérios de integração na atualidade.

Daí surge o clamor por reestruturação e modernização do ensino fundamental e médio, no que diz respeito às ciências duras; pela modernização e ampliação das universidades, para suprir o mercado com engenheiros qualificados; aperfeiçoamento das técnicas e das tecnologias de ensino, pesquisa e produção; modernização do parque industrial brasileiro e aumento das obras em infraestrutura, tanto como etapa fundamental para um escoamento eficiente da produção nacional, quanto para a geração de emprego; atualização das grades curriculares dos cursos de engenharia para melhor se relacionar com as questões ambientais e legais. Enfim, o reconhecimento dessa ordem de coisas é, sem dúvidas, trivial para um entendimento amplo da relação entre as engenharias, as questões e as críticas da atualidade. Em resumo, espera-se que os estudantes estejam a par do tempo histórico no qual estão situados, que sejam “atuais”.

Contudo, além da formação de estudantes conhecedores dos processos que os rodeiam, a humanização das engenharias, proposta defendida nesse e em textos futuros, tem como pré-requisito também o protagonismo dos que chamarei aqui de engenheiros contemporâneos. Para sugerir esse termo, tomei emprestada uma das proposições de Agamben (2006) em sua tentativa de definir o que seria um sujeito contemporâneo. Para o autor, genericamente, contemporâneo é alguém capaz de manter os olhos fixos no seu tempo, de forma a ser capaz de enxergar os elementos que não estão na superfície, que passam despercebidos diante dos olhos da maioria, devido à velocidade com a qual transitam. Para o filósofo italiano, o contemporâneo mantém uma relação singular com o seu próprio tempo, aderindo a este – por estar inevitavelmente inserido naquele contexto histórico e circunscrito aos seus aspectos materiais e ideológicos – e se distanciando dele – como forma de apreender os detalhes da ordem na qual está situado (AGAMBEN, 2006, p. 59).

Um breve olhar sobre a história poderá mostrar que a quase totalidade das grandes descobertas e proposições, das ciências exatas às humanas, foram protagonizadas por cientistas e pensadores que romperam com os paradigmas e barreiras de seus respectivos tempos históricos e campos do conhecimento. Foram pessoas que tiveram a capacidade de enxergar contradições ou soluções para os problemas que permearam as ciências ou as sociedades de uma dada época, em suma, cientistas e intelectuais contemporâneos de seu tempo.

Assim, mais do que reproduzir e incrementar uma ordem ideológica ou produtiva, os engenheiros contemporâneos fazem uso dos instrumentos de seu tempo – conhecimento científico, tecnologias e informação – para propor novas realidades e novos usos para esse mesmo aparato. Sua inserção na atualidade e no mercado de trabalho se dá paralela ao compromisso ético de desenvolver propostas criativas para a resolução de problemas sociais e ambientais, que afetam a vida de milhares de pessoas nos grandes centros urbanos e nas zonas desassistidas do país.

Como principais agentes responsáveis pelo projeto de humanização das engenharias, cabe a estes estudantes, pesquisadores e professores, adotar uma postura intelectual que faça transparecer essa ética. Suas análises sobre os empregos possíveis da engenharia como vetor de mudança social precisam, portanto, ser capazes de despertar nos demais o incômodo, a curiosidade, e por fim, a mudança de postura. Vale dizer que a relação entre engenheiros contemporâneos e atuais é de complementaridade, pois só assim torna-se possível compreender com profundidade o funcionamento, a materialidade e as ideologias de uma época, sem, contudo, adequar-se passivamente às suas pretensões.

Eis então um dos maiores e mais estimulantes desafios que a humanização da engenharia deve enfrentar: formar estudantes contestadores, especialmente das funções pré-definidas que universidade e mercado de trabalho delimitam para eles, elas e as engenharias. Se o que se noticia na atualidade é que o número de formandos em engenharia no Brasil ainda é insuficiente para atender às demandas do país, a porcentagem daqueles que podem  carregar o título de “contemporâneos”, infelizmente, é muitíssimo menor. 

Referências: 
AGAMBEN, Giorgio. O que é o contemporâneo. In: TEXTO INAUGURAL DO CURSO DE FILOSOFIA TEORÉTICA; Veneza, – Faculdade de Arte e Design, Universidade IUVA de Veneza, 2006-2007. p. 58-73.

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